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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O candomblé de caboclo em São Paulo - Parte I



O caboclo é a entidade espiritual presente em todas as religiões afro-brasileiras, sejam elas organizadas em torno de orixás, voduns ou inquices. Pode não estar presente num ou noutro terreiro dedicado aos deuses africanos, mas isto é exceção. Seu culto perpassa as modalidades tradicionais afro-brasileiras — candomblé, xangô, catimbó, tambor de mina, batuque e outras menos conhecidas —, constitui o cerne de um culto praticamente autônomo, o candomblé de caboclo, e define estruturalmente a forma mais recente e mais propagada de religião afro-brasileira, a umbanda. A origem dos candomblés de caboclo estaria no ritual de antigos negros de origem banto, que na África distante cultuavam os inquices — divindades africanas presas à terra, cuja mobilidade geográfica não faz sentido — e que no Brasil viram-se forçados a encontrar um outro antepassado para substituir o inquice que não os acompanhou à nova terra. Neste novo e distante país, que antepassado cultuar senão o índio, o caboclo, como diziam os antigos nordestinos? Os antigos habitantes, quem senão o verdadeiro e original "dono da terra"? (Santos, 1995).
Apesar de preponderantemente identificados como índios, há caboclos de diferentes origens míticas, como boiadeiros, turcos e marinheiros ou marujos. Caracterizam-se, em geral, pela comunicação verbal e proximidade de contato com o público que freqüenta os terreiros. Eles brincam, entoam cantigas e tiram as pessoas para dançar ao som de seu alegre samba. Além da animação, outra característica marcante é seu poder de cura e a disposição para ajudar os necessitados, mais a sabedoria. Acredita-se que os caboclos conhecem profundamente os segredos das matas, podendo assim receitar com eficácia folhas para remédios e banhos medicinais. No imaginário popular, o caboclo é a um só tempo valente, destemido, brincalhão e altruísta, capaz de nos ajudar para o alívio das aflições cotidianas. As pessoas que acorrem aos cultos afro-brasileiros, sobretudo as mais pobres, encontram nesta entidade um sábio curandeiro, sempre pronto a vir em socorro dos aflitos.
O termo candomblé de caboclo teria surgido na Bahia, entre o povo-de-santo ligado ao candomblé de nação queto, originalmente pouco afeito ao culto de caboclo, justamente para marcar sua distinção em relação aos terreiros de caboclos. Nos anos 30, de acordo com relato da antropóloga americana Ruth Landes, que esteve na Bahia num período entre 1938 e 1939, usavam-se as expressões mãe cabocla, seita cabocla, candomblé de caboclo em oposição aos termos dos candomblés africanos. De uma visita que fez ao terreiro de Mãe Sabina, famosa sacerdotisa cabocla, Ruth Landes registrou um diálogo significativo entre esta mãe-de-santo e outras mulheres do templo, diálogo do qual vale a pena relembrar este trecho:
Uma das mulheres, referindo-se à americana, pergunta a Mãe Sabina:
"Ela sabe qual é a nossa seita? Sabe que somos caboclos e os outros são africanos?
Ao que responde Sabina:
A senhora deve saber essas coisas. Este templo é protegido por Jesus e Oxalá e pertence ao Bom Jesus da Lapa. É uma casa de espíritos caboclos, os antigos índios brasileiros, e não vem dos africanos iorubás ou do Congo. Os antigos índios da mata mandam os espíritos deles nos guiar, e alguns são espíritos de índios mortos há centenas de anos. Louvamos primeiro os deuses iorubás nas nossas festas porque não podemos deixá-los de lado; mas depois salvamos os caboclos porque foram os primeiros donos da terra em que vivemos. Foram os donos e portanto são agora nossos guias, vagando no ar e na terra. Eles nos protegem. (Landes, 1967, p. 196).
Hoje, na diferenciação com outras nações de candomblé, como queto, jeje, ijexá, efã, angola e congo, fala-se numa nação caboclo[1], mas raramente pode-se encontrar um candomblé de caboclo funcionando independentemente de um candomblé das outras nações. Embora muito associado ao candomblé angola, o rito caboclo já começava, à época da visita de Landes à Bahia, a ser incorporado também a candomblés de nação queto.
Na disputa por legitimidade e prestígio, os candomblés de caboclos foram considerados inferiores tanto pelo povo-de-santo como pelos pesquisadores, que deles escreveram muito pouco. O primeiro trabalho científico tratando com profundidade do candomblé de caboclo somente apareceu em 1995, com a publicação do livro O dono da terra, tese de mestrado defendida na USP pelo antropólogo baiano Jocélio Teles dos Santos. A dissimulação e mesmo a negação do culto aos caboclos nos terreiros marcados pela ortodoxia nagô, entretanto, mantém-se até hoje, sendo comum a acusação de que em tal ou qual terreiro queto que não tem caboclo, a mãe-de-santo ou outra pessoa de prestígio recebe seu caboclo escondido ou, no mínimo, lhe oferece sacrifícios na mata. Apesar de considerado inferior, o candomblé de caboclo impregnou-se nas demais nações e por meio delas propagou-se pelo País. De seu encontro com o espiritismo kardecista, que resultou num grande embate ético, nasceu, no Rio de Janeiro dos anos 30, a umbanda, com o desenvolvimento de ritos, ritmos e panteão particulares. O velho candomblé de caboclo continuou, contudo, com vida própria e, num outro movimento, chegou de novo ao Rio de Janeiro e São Paulo, sempre associado ao candomblé de orixá e inquice, mas separado da umbanda. E como tal se mantém e se reproduz.
No candomblé de caboclo há predominância de muitos elementos do candomblé angola, os atabaques são tocados com as mãos, as músicas são cantadas em português, com uso freqüente de termos rituais de origem banto. O apelo a uma cultura indígena, quase sempre idealizada, proporciona ao candomblé de caboclo uma valorização de elementos nacionais, fazendo dele, na concepção popular, uma religião "brasileira por excelência". Elementos simbólicos nacionais são ressaltados, como a menção às matas, as cores verde e amarelo, o sincretismo católico e a miscigenação racial. Em todo seu repertório musical fala-se muito desse amálgama cultural que é o Brasil. Esta matriz cabocla foi inteiramente absorvida pela umbanda, que na forma é um candomblé de caboclo, mas que contém uma elaboração ética da vida que separa o bem do mal nos moldes kardecistas completamente ausente na tradição cabocla e que fez da umbanda uma religião diferente e autônoma.
Hoje o candomblé não é mais uma religião étnica circunscrita à população negra, pois já se espalhou pela sociedade branca abrangente, rompendo preconceitos e fronteiras geográficas, inclusive para fora do País. Legitimou-se como mais uma opção religiosa e vem aos poucos garantindo seu espaço no disputado mercado religioso contemporâneo. A propagação desta religiosidade na populosa Região Sudeste, a partir dos anos 60, deu-se principalmente a partir dos terreiros umbandistas que aí existiam desde os anos 30 e 40. Numerosos filhos-de-santo da umbanda aderiram ao axé da tradição negro-baiana, cuja força vital era por eles considerada mais forte. A busca mágico-religiosa da satisfação de anseios do metropolita moderno tornou o candomblé uma religião universalizada, isto é, agora aberta a todos. É eloqüente o caso da fixação do candomblé em São Paulo (Prandi, 1991). Com o orixá, o inquice e o vodum do candomblé veio o caboclo do candomblé, que é ritualmente e doutrinariamente diferente do caboclo da umbanda.
No contexto da transformação religiosa que trouxe o candomblé do Nordeste para o Sudeste, que ainda encontra-se em curso, os caboclos certamente têm sido protagonistas decisivos, afinal seu culto foi mantido e está presente hoje em quase todos os terreiros de candomblé, sejam eles de rito angola, queto ou efã.
O candomblé de caboclo atualmente é praticado paralelamente ao culto de divindades africanas, estando associado aos terreiros de inquices, orixás e voduns. Tudo se passa como se houvesse duas atividades religiosas independentes, podendo mesmo se observar separação dos espaços físicos, não se misturando caboclo com orixá. Mas o pai ou mãe-de-santo é obviamente a mesma pessoa, assim como os ogãs alabês, os tocadores de atabaque, e outros sacerdotes. Enquanto o candomblé dos deuses exige um complexo e demorado processo de iniciação, no candomblé de caboclo não há propriamente algo correspondente à "feitura de santo". Noviços passam a freqüentar os toques, podendo receber o encantado sem nenhuma preparação preliminar baseada em longo período de clausura. Num mesmo terreiro, há filhos "feitos", iniciados, para orixás-inquices que também recebem seus caboclos, mas é possível observar número expressivo de filhos que recebem caboclo e participam ativamente do candomblé de caboclo, mas que nunca são iniciados para a divindade africana, comportando-se ritualmente nos toques de orixás como simples abiãs, iniciantes. Também não participam das cerimônias sacrificiais aos orixás, reservadas aos filhos de orixá "feitos". Em muitos terreiros, contudo, primeiro observa-se a iniciação do filho-de-santo para o orixá, ocorrendo depois, geralmente na obrigação de um ano, a "chamada" do caboclo, que então incorpora no novo filho, podendo ser batizado ou não em cerimônia descrita mais adiante.
Diferente da umbanda, o caboclo do candomblé recebe sacrifício, sendo suas festas públicas precedidas de cerimônias de matança, com ofertas de aves, cabritos e bois. Em muitos terreiros, a oferta de bois e novilhos é uma demonstração do poder sagrado do caboclo e de seu prestígio junto aos filhos-de-santo. Suas festas podem ser muito mais fartas e concorridas que as reservadas ao orixás. O caboclo de candomblé, como os orixás, também pode ter assentamento, isto é, uma representação de base material, com instrumentos de ferros e outras insígnias fixadas numa vasilha, em geral um alguidar, junto ao qual se depositam as oferendas: seu altar. Também pode ter seu quarto-de-santo, geralmente uma cabana ou um espaço aberto ou semi-aberto localizado no quintal do terreiro, área que o caboclo compartilha com orixás e inquices identificados com o mato e os espaços abertos, como Ogum ou Incôci, Oxóssi ou Gomgobira, Ossaim ou Catendê.
Os caboclos são espíritos dos antigos índios que povoavam o território brasileiro, os antigos caboclos, eleitos pelos escravos bantos como os verdadeiros ancestrais em terras nativas. São espíritos, não deuses. São eguns, na linguagem do candomblé nagô. Ao caboclo índio também se designa "caboclo de pena", referência aos penachos e cocares que usa quando em transe para marcar sua origem indígena. Mas há também caboclos de outras procedências: os caboclos boiadeiros, que teriam um dia vivido no sertão na lida do gado e que usam o chapéu característico de sua antiga ocupação; os marujos ou marinheiros, sempre cambaleantes por causa do "tombo do mar" que marca a vida nos navios. Alguns caboclos são originários de lugares imaginários, como a Vizala ou a Hungria.
No candomblé, os caboclos, que também podem ser do sexo feminino, são considerados filhos dos orixás e os próprios caboclos incorporados a eles assim se referem, quando dizem que foi o pai ou a mãe que os mandou vir à terra para a celebração do toque, ou quando vão embora e dizem que foi o pai ou a mãe que chamou. Estabelece-se assim uma correspondência entre a paternidade do caboclo e do filho-de-santo, de sorte que filhos de Oxum têm caboclos de Oxum, filhos de Xangô têm caboclos de Xangô e assim por diante. Vejamos uma lista de caboclos e caboclas com os respectivos orixás, notando como os nomes dos caboclos tendem a fazer referência a atributos do orixá:
Ogum - Caboclo do Sol, Pena Azul, Giramundo, Serra Azul, Serra Negra, Sete Laços, Trilheiro de Vizala, Sete Léguas, Rompe Mato, Laço de Prata;
Oxóssi - Mata Virgem, Pena Verde, Jurema, Arranca-Toco, Sete Flechas, Urubatam;
Ossaim - Junco Verde, Boiadeiro das Matas, Floresta, Guarani;
Omolu - Girassol, Tupinambá, Xapangueiro, Cambaí;
Nanã - Treme Terra, Cabocla Camaceti, Rei da Hungria;
Oxumarê - Cobra Coral, Cobra Dourada;
Xangô - Mata Sagrada, Boiadeiro Zamparrilha, Boiadeiro Trovador, Boiadeiro Corisco, Sete Pedreiras;
Iansã - Ventania, Vento, Jupira, Zebu Preto, dos Raios;
Obá - Pena Vermelha;
Oxum- Lua Nova, Lua, Jandaia, Cabocla Menina, Estrela Dourada, Sultão das Matas;
Logun-Edé - Laje Grande, Laje Forte, Bugari;
Iemanjá - Sete Ondas, Indaiá, Juremeira, Estrela, Sete Estrelas, Iara;
Oxalá - Pedra Branca, Pena Branca, Lua Branca, Águia Branca.

Caboclos e orixás são tratados nos candomblés como entidades de naturezas diferentes. Além das distinções de caráter meramente formal, há aspectos que os distinguem e que são importantes na relação que se estabelece entre cada um deles e seus devotos.
Todo filho-de-santo deve ser iniciado para um determinado orixá (ou inquice, ou vodum), que é considerado seu antepassado, seu pai ou mãe, sua fonte de vida. A iniciação implica recolhimento e ritos complexos que envolvem somas de dinheiro elevadas, nem sempre compatíveis com a extração social dos adeptos das religiões afro-brasileiras, em geral, pobres. O culto do caboclo não requer processo iniciático deste tipo, podendo ocorrer em algumas casas o batismo do caboclo, um ritual de confirmação bem mais simples que a "feitura".
Enquanto os deuses africanos vêm aos terreiros para dançar e falam apenas com algumas pessoas com cargos sacerdotais, os caboclos dirigem-se diretamente a todos que os procuram nos toques ou nas festas. Conversar é sua característica marcante. Todo caboclo é falante. Pode ser simpático ou carrancudo, amigável ou arredio, irreverente ou reservado, mas é sempre falador. Para se conhecer a vontade dos orixás é preciso recorrer ao jogo de búzios, que somente a mãe ou pai-de-santo pode jogar. Parecem um tanto distantes, portanto. Já os caboclos dizem o que sentem sem nenhuma mediação. A relação com o cliente é direta, face a face.
A língua é outro fator importante nesta distinção, pois grande parte das pessoas que vão aos terreiros não compreende as línguas rituais derivadas do iorubá, fom ou quicongo e quimbundo em que se cantam as cantigas. Nem mesmo a maioria dos filhos-de-santo sabe o que está cantando, pois as línguas rituais hoje são intraduzíveis. Aos caboclos, pelo contrário, canta-se em português. Suas cantigas são simples e sugestivas, com expressões e termos conhecidos do catolicismo tradicional e do imaginário popular. Um culto assim é menos afro e mais brasileiro, ou seja, mais "nosso" para muita gente.
Em alguns terreiros, os caboclos são concebidos como "mensageiros" dos orixás. Segundo alguns pais-de-santo, eles são transmissores das vontades divinas, afinal "eles falam o que os orixás não podem falar". Mãe Manodê, 78 anos, chefe do terreiro angola que foi o primeiro a se estabelecer em São Paulo como terreiro de candomblé, nos anos 60, diz:
O caboclo é mensageiro dos orixás. Ele tem que fazer o que os orixás mandam: consulta, ebó da prosperidade, ebó da bênção... É o orixá que determina, aí então o caboclo pega o filho-de-santo para fazer ebó.
Mãe Manodê, reforçando a idéia da subordinação deles aos orixás, afirma a importância dos caboclos como mediadores na relação dos clientes com os orixás, dizendo que afinal "eles sabem dar palestras", isto é, conversar com desenvoltura com fiéis e clientes, coisa que orixá não faz. Esta antiga mãe-de-santo baiana reivindica ainda para o candomblé angola a exclusividade da devoção aos caboclos: "O candomblé queto não cultua caboclo. O que existe hoje é invenção dessa gente. Caboclo sempre foi de angola, sempre, desde a Bahia. Depois o queto copiou."
Hoje em São Paulo dificilmente o caboclo pode ser usado como divisor de águas entre as nações de candomblé de origem banto e iorubá ou nagô, embora todos reconheçam que sua origem está inscrita nos antigos terreiros de candomblé angola e congo da Bahia, cujas expressões maiores são os terreiros do Bate Folha e o Tumba Junçara, ambos em Salvador, ambos centenários. O caboclo está presente nos candomblés de todas as nações. Não é cultuado em apenas uns poucos terreiros africanizados, embora haja terreiros africanizados com culto de caboclo. Mesmo terreiros tributários dos mais antigos terreiros queto da Bahia cultuam caboclo, ainda que o culto se resuma a uma única festa anual.
Continua... em outra edição O candomblé de Caboclo em São Paulo - Parte II
Aguardem!!
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