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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O candomblé de caboclo em São Paulo - Parte II


Batismo de caboclo

Os ritos do candomblé de caboclo são bastante simples quando comparados com as cerimônias devidas a orixás e demais divindades africanas. Na medida em que o caboclo vai sendo incorporado ao cotidiano dos candomblés de orixá-inquice, algumas cerimônias tendem a ganhar complexidade, às vezes nos moldes destes cultos. O rito relatado a seguir, observado em terreiro paulista de candomblé angola-queto, é bastante emblemático.
À época esse terreiro realizava sessões semanais de consultas com caboclos, em que um público de baixa renda, na maior parte, acorria em busca de soluções para toda sorte de problemas.
Nesse terreiro, após ser realizada a obrigação de um ano de iniciação para o orixá do filho-de-santo, é marcada a data em que o caboclo é chamado a possuir o iaô, tornando-se o caboclo mais uma das entidades de culto particular do filho-de-santo, que além do orixá principal, o dono de sua cabeça, deve obrigações ao juntó (o segundo orixá) e ao Exu (mensageiro do orixá principal), ambos também assentados na obrigação de um ano.
Previamente a mãe-de-santo solicitou ao filho-de-santo os seguintes itens necessários ao ritual: um alguidar grande, uma quartinha de barro sem asas, um litro de azeite de dendê, um litro de vinho doce, um litro de mel, um quilo de sal, cebola, nós moscada, canela, cravo, gengibre, uma pemba branca, velas brancas e coloridas, além de outros itens secundários. Consultando o oráculo do jogo de búzios, a mãe-de-santo fez ver a vontade do caboclo, que solicitou como oferenda três galos, duas galinhas e um casal de codornas. Segundo a mãe-de-santo, também Exu respondeu no oráculo, indicando sua vontade de receber um galo em sacrifício.
Nesse terreiro, o caboclo é assentado após o conhecimento do seu ponto riscado, espécie de desenho que o mesmo faz no chão com pemba branca, a partir do qual uma ferramenta é confeccionada em ferro. Este símbolo, acompanhado de búzios, moedas e folhas frescas é fixado num alguidar com cimento, preparado com areia numa mistura com o amassi do caboclo (ervas maceradas em água). No caso aqui relatado, somente dali a algum tempo o assentamento definitivo seria feito, pois antes da cerimônia o caboclo ainda não se fizera conhecer.
Na noite anterior ao dia marcado, o filho-de-santo dirigiu-se ao terreiro levando consigo todo o material necessário. Na manhã seguinte, acompanhado de outros dois filhos-de-santo, dirigiu-se a uma mata próxima ao terreiro onde colheu folhas de aroeira, cipó-caboclo, goiabeira, mangueira, guiné, comigo-ninguém-pode, fumo, eucalipto, são-gonçalinho, além de arruda e tapete-de-Oxalá, que eram cultivados no próprio terreiro. As folhas seriam maceradas e serviriam para lavar o alguidar e a quartinha de barro do caboclo. É interessante observar que o filho-de-santo não banhou-se com essas ervas, banhando-se com o abô (infusão de ervas que permanece num pote e que temporariamente é renovada) pertencente ao rito dos orixás.
A mãe-de-santo, acompanhada apenas do axogum (sacerdote do candomblé de orixá responsável pelo sacrifício dos animais), dirigiu-se ao quarto de Exu onde realizou o sacrifício do galo. Os dois entoaram alguns cantos e saudaram Exu, trazendo no final do ritual um alguidar de farofa amarela (farinha de mandioca com azeite de dendê), da qual sete punhados foram jogados na rua.
Enquanto o animal de Exu era limpo na cozinha-do-santo, a mãe-pequena da casa incensou todo o terreiro entoando as seguintes cantigas:
Incensa, incensado a casa do meu avô
Incensa, incensado em nome do Senhor

Estou orando, estou incensando (bis)
A casa do Bom Jesus da Lapa (bis)
Nossa Senhora incensou seus bentos filhos
Incensou para cheirar
Eu também vou incensar a minha casa
Para sorte e a felicidade entrar
Com todos os membros do terreiro reunidos no barracão (como é conhecido o salão de danças do terreiro), a mãe-de-santo deu início ao ritual propriamente dito. Os ingredientes anteriormente citados estavam colocados sobre uma esteira, em que também estava sentado o filho-de-santo.
A mãe-de-santo entoou algumas rezas que são chamadas Angoroci, saudando e pedindo licença a todos os orixás para cumprir o ritual em louvor do caboclo. Tomou um adjá (campainha ritual) e começou a chamar, através de toadas, os caboclos conhecidos no terreiro:
Angoroci daraa auê (bis)
Angoroci mene mene
Tateto Sultão das Matas, oi si!
Assim sucessivamente saudou os caboclos Pena Branca, Juremeira, Laje Grande, Pena Dourada. Logo depois, aproximando-se do filho-de-santo, soando o adjá. Acompanhando a mãe-de-santo, todos os presentes gritavam:
Xeto marrumbaxeto
Xeto na Vizala
Xeto á!
Os gritos repetiram-se muitas vezes até que, num dado momento, o corpo do filho-de-santo começou a tremular. Seus gestos davam a impressão de estar passando por uma convulsão, sendo amparado por uma equede (espécie de aia do orixá) e pela mãe-pequena. Em seguida, todos ouviram um grito estridente, como se fora o de um pássaro. Era o caboclo que havia possuído em transe o filho-de-santo ali sentado. Era seu sinal.
Todos os presentes saudaram o caboclo que acabara de chegar com gritos de Xeto marrumbaxeto, a saudação aos caboclos, e muitas palmas. O caboclo em transe parecia muito esquivo. Em muito havia se modificado o semblante do filho-de-santo, bem como seus movimentos físicos.
O caboclo saudou a mãe-de-santo com certa cerimônia, abraçando-a apenas. Nenhum outro tipo de cumprimento foi feito, tal como o beijar a mão ou o deitar-se no chão aos pés do outro, gestos típicos, e obrigatórios, na etiqueta dos terreiros de orixás e inquices. A mãe-de-santo então perguntou ao caboclo seu nome e pediu que entoasse seu canto de chegada. Com ar circunspecto, ele identificou-se como Caboclo da Lua e cantou:
Caboclo flecheiro, sou da nação do Brasil
Sou da nação do Brasil, sou caboclo
Caboclo flecheiro
Todos os presentes, demonstrando grande alegria, gritavam entre palmas: Xeto marrumbaxeto, xeto na Vizala, xeto á!
O caboclo manteve-se ajoelhado e ligeiramente curvado na esteira. A mãe-pequena colocou as folhas que haviam sido colhidas pela manhã dentro de um alguidar grande, juntando-lhes água e macerando-as em seguida, tornando essa mistura num líquido verde escuro de forte e agradável olor, com que lavou o alguidar e a quartinha pertencentes ao assento do caboclo.
A mãe-de-santo mandou vir os animais a serem sacrificados, mas, antes do início dos sacrifícios, despejou no alguidar um pouco de água, azeite de dendê e mel. Num pote reservado ao preparo da bebida ritual dos caboclos colocou os mesmos ingredientes acrescidos de canela, cravo e noz-moscada. A mãe-de-santo iniciou o ritual entoando uma cantiga de saudação à casa, há muito incorporada ao repertório da música popular brasileira:
Ó Deus vos salve esta casa santa (bis)
Onde Deus fez a morada
Onde mora o cálice bento
E a hóstia consagrada
Depois disso, o axogum, auxiliado por outro ogã, imolou com uma faca os galos, enquanto todos cantavam:
Carangolo batula sangue
Sangue na xoro ro
Moasi sauere sangue na xoro ro

Sangue na palangana com maleme tateto
Sangue na palangana com maleme mameto
Em seguida foi a vez das galinhas, mas desta vez com a cantiga:
Sangue mona sa que sa la
coro mo sangue o (bis)
O casal de codornas foi dado ao caboclo, que sacrificou as aves mordendo o pescoço e tomando do sangue que brotava. Nesse momento era cantada a cantiga:
Batula batula san
Sangue na xoro ro
Moaci sauere sangue na xoro ro
O sangue das aves maiores foi derramado dentro do alguidar e em seguida no pote de barro colocado ao lado deste, sendo mexido com uma colher de pau pela mãe-pequena. A mãe-de-santo marcava com o sangue das aves as têmporas do filho-de-santo "virado" no caboclo, que, a cada animal sacrificado, emitia seu grito, seu ilá, saudando a oferenda recebida.
As cabeças e os pés das aves foram colocados num pequeno alguidar, que depois foi enfeitado com as penas das mesmas.
Terminado o sacrifício, os animais foram levados à cozinha para serem limpos e cozidos, enquanto outra cantiga era entoada:
Batulé sai andando com os pés
Batulé sai andando com os pés
As asas, o pescoço, o fígado, o coração e a moela de cada ave, depois de cozidos, foram oferecidos ao caboclo, as demais partes foram comidas pelos membros do terreiro, acompanhadas de outras iguarias como milho cozido, moranga cozida, arroz e farofa.
O alguidar contendo o sangue dos animais, a quartinha com água, as partes cozidas dos animais, além de milho cozido temperado com sal e azeite de dendê colocado numa moranga cozida foram depositados, juntamente com frutas diversas, aos pés de uma árvore de são-gonçalinho existente no terreiro.
Todos os filhos da casa beberam da mistura denominada menga, que, como nos garantiram, é uma bebida muito apreciada por todos.
O Caboclo da Lua permaneceu "em terra" até que as comidas estivessem cozidas. Conversou com todos, bebeu cerveja e só não dançou porque naquela dia não havia toque.
Em outra ocasião tivemos a oportunidade de vê-lo paramentado com um cocar feito de penas de papagaio, vestindo um bombacho em tecido estampado. Trazia um atacam (espécie de faixa) amarrado no tronco, terminando num laço preso às costas. Numa das mãos trazia uma lança de ferro e na outra, um galho de aroeira. Cantou e dançou então ágil, garboso e completamente integrado à comunidade do terreiro. Já havia sido batizado e, conforme nos foi informado, seu assentamento já havia sido "firmado".
Os sacrifícios aqui descritos são repetidos com regularidade, geralmente no intervalo de um ano. Mesmo terreiros que não fazem o batismo conduzem as cerimônias sacrificiais nos moldes do que aqui foi mostrado. Dificilmente haverá alguma festa que não seja precedida de sacrifício.

Primeiro uma distinção: toques ou giras são cerimônias públicas periódicas, em que os caboclos vêm para "trabalhar", isto é, dar consulta aos necessitados, oferecer conforto aos carentes. Festas são celebrações públicas, geralmente anuais, em que os caboclos vêm para serem homenageados, para dançar e conviver com seus devotos e amigos, como ocorre com as festas dos orixás.
Em São Paulo os toques de caboclo podem ser semanais, quinzenais ou mensais. Em alguns terreiros não têm periodicidade, podendo-se tocar eventualmente. Há pequenas variações de caso para caso, mas em geral eles têm essa seqüência: padê (oferenda de farofa com dendê para Exu), xirê (cantos em língua ritual, geralmente do rito angola, para os orixás ou inquices), Angoroci (espécie de louvor aos caboclos), chegada dos caboclos no transe ritual, cantos de invocação, intervalo para paramentar os caboclos, retorno dos caboclos ao barracão com seus cumprimentos e danças e, finalmente, consultas à assistência.
Os caboclos fumam charutos — fumar é o atributo indígena por excelência — e bebem bebidas alcoólicas (cerveja, vinho e a bebida ritual jurema), que costumam compartilhar com seus consulentes. Algumas equedes auxiliam nas consultas, seja traduzindo algumas expressões ou tomando notas. Nos toques as pessoas formam filas para a consulta e em algumas casas chegam até a utilizar senhas. É grande a semelhança com uma sessão de umbanda.
A ênfase das consultas é a cura dos males do corpo, chamando a atenção a quantidade de idosos entre os consulentes. Alguns trazem velas, outros flores ou algum outro artefato prescrito anteriormente pelo caboclo. O fato é que todos depositam nele suas esperanças e com ele mantém relação de cumplicidade. Problemas afetivos, da intimidade ou de ordem material são também abordados, mas secundariamente. Para essas questões parece haver duas alternativas: procurar entidades da umbanda como exus, pombagiras e baianos ou recorrer ao oráculo do jogo de búzios, que é prerrogativa do pai ou mãe-de-santo, sem intermediários. Esta última opção é sem dúvida importante na estratégia dos terreiros de candomblé, seja porque abre caminho para o ingresso de um novo aspirante, que deverá aprofundar seus laços também com os orixás, seja porque gera renda, dado que o jogo de búzios é invariavelmente pago. Os caboclos podem sugerir ao consulente qual seria seu orixá, mas convidando-o a voltar outro dia e jogar búzios com a mãe-de-santo, a fim de obter a confirmação sobre o seu "dono de cabeça".
Ainda com relação à distinção entre consulta espiritual com caboclo e jogo de búzios, vale apontar que o primeiro é considerado subordinado ao segundo, cabendo ao jogo de búzios as decisões consideradas mais sérias e as confirmações. Como nos contou um pai-de-santo:
O caboclo ensina banho, remédio, mas não desfaz um malfeito, ele apenas alivia. Ele pode dizer o que foi feito, mas não pode tirar. Isso só é feito com ebó, depois do jogo de búzios.
A comunicação com os caboclos nos toques atende portanto a pessoas que buscam respostas imediatas e acessíveis, senão gratuitas, a suas aflições. É também uma porta de entrada para o jogo de búzios, o qual pode significar um início do processo de arregimentação religiosa, uma vez que o adepto em potencial passa a interagir mais de perto com a mãe-de-santo, ou então a consolidação da condição de cliente.

Um comentário:

  1. OLA GOSTEI DO SITE MAS ESTOU PROCURANDO ALGO SOBRE O CABOCLO LUA PEQUENA .. S PUDER POSTAR ALGO FICO GRATA .. A PAZ DE OXALA! DANY

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