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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O candomblé de caboclo em São Paulo - Parte III




As festas de caboclo acontecem anualmente em data que varia de terreiro para terreiro, embora alguns prefiram o 2 de julho, segundo a tradição baiana. São em geral grandes encontros dos quais participam, além dos filhos-de-santo da casa, amigos, parentes dos iniciados, clientes, simpatizantes e convidados de outros terreiros.
Diferente dos toques, as festas não são caracterizadas pelo atendimento ao público, mas sim pelas danças, brincadeiras e pela comida que é distribuída ao final. Nessa ocasião os caboclos não vêm para "trabalhar", mas para ser homenageados.
Segundo a forma que mais se observa, a festa de caboclo é iniciada com um toque aos inquices. Mesmo os terreiros de tradição iorubá (queto e efã) costumam realizar esta parte preliminar do culto com ritmos e cânticos do candomblé angola, reconhecidamente a nação mais próxima dos caboclos, embora haja terreiros queto que tocam em queto quando os orixás são homenageados nesta primeira parte da festa de caboclo.
Segundo o costume angola, toca-se primeiro para Pambu Njila-Bombogira-Aluviá (Exu), com uma oferta de farofa e bebida ou água, depois para os inquices masculinos, aproximadamente nesta ordem: Roximucumbe-Incôci, Catendê, Gomgobira-Mutacalambô, Cafunã-Cavungo, Angorô, Tempo, Zázi, Vúngi. Seguem-se os cânticos para os inquices femininos, Matamba-Bamburucema, Dandalunda, Nzumba, Cucuetu-Caiá, encerrando-se com a homenagem a Lembá e Nzambi.

Na festa ocorrida em 6 de setembro de 1998 no terreiro de candomblé angola Sociedade Beneficente Caboclo Sete Flechas, também conhecido como Inzo N’kisi Mussambu, localizado em Carapicuíba, na Grande São Paulo, depois da seqüência de cantigas aos inquices e antes do início das homenagens aos caboclos, ouviu-se a preleção de Tata Tauá, o pai-de-santo, que interrompeu o toque e falou:
Bem-vindos todos. O pessoal de outros terreiros, as visitas, os da umbanda sintam-se todos em casa. Esta é uma festa de caboclos. Mas alguém pode perguntar: "por que estão cantando para inquice?" Nós louvamos primeiro os inquices por uma questão de espaço físico. Eles são donos desse espaço aqui e por isso nós cantamos para eles antes. Mas caboclos e inquices não têm nada a ver, eles têm fundamentos diferentes. São duas coisas diversas. Como não temos um espaço separado para cada um, cantamos primeiro para os inquices e pedimos licença. Nós vamos cantar agora pra caboclo.
O terreiro está todo enfeitado para a ocasião. O barracão está ornado com as características bandeirinhas de papel de seda forrando o teto. Folhas, flores e objetos indígenas decoram as paredes. Num quarto ao lado foi armada a junça, o quarto do caboclo, povoado de imagens de
caboclos e objetos indígenas, onde estão as comidas preparadas com as carnes dos sacrifícios realizados no dia anterior, muitas folhas e uma enorme profusão de frutas. A cabana do caboclo é um elemento indispensável na festa de caboclo, podendo ser montada, com bambu e folhas de coqueiro, no próprio barracão, quando o espaço o permite, ou fora dele. Nunca faltará a moranga, prato predileto do encantado, nem o pote de jurema, bebida fermentada preparada com a casca do arbusto da jurema (Pithecolobium torti), devidamente trazida da Bahia, vinho doce, mel, nós moscada, gengibre, cravo e canela, ao que alguns terreiros adicionam sangue dos sacrifícios ou dendê, e que em certas casas recebe o nome de menga.
"Abre-te campo formoso..." Com este verso, de uma cantiga que faz alusão ao local imaginário onde os seres encantados habitam, dá-se início à chamada dos caboclos, para mais uma vinda deles ao mundo dos mortais, ao mundo do candomblé.
Não importa o local do encontro, se pequeno e modesto, imenso e abarrotado de símbolos do imaginário dos terreiros, o mais importante é a festa em si, sinônimo de reunião de pessoas com o fim de louvar, orar e estar na companhia dos caboclos.
Na abertura, ao som dos atabaques e demais instrumentos de percussão (xequerê, maraca, agogô etc.), canta-se:
Abre-te campo formoso (bis)
Cheio de tanta alegria
Cheio de tanta alegria
A atmosfera do terreiro já é de muita alegria e, com uma segunda cantiga, os caboclos são chamados a participar da festa:
E lá vem seu boiadeiro
E lá vem seu capangueiro
Cheio de tanta alegria
Cheio de tanta alegria
No terreiro Inzo N’kisi Mussambu, a mãe-de-santo dança rodeada por seus filhos, que chamam pelo maior caboclo da casa, Sete Flechas, gritando "Xeto Marrumbaxeto!" Chega o caboclo da mãe-de-santo com seu ilá, seu grito característico. É uma grande festa. Um a um os caboclos vão apossando-se de seus "cavalos" (filhas e filhos-de-santo por eles possuídos). Ouvem-se palmas, salvas, gritos. Batendo compassadamente a mão espalmada na boca, os filhos-de-santo emitem um som muito característico, como o que se ouve em filmes americanos de índios. O clima de entusiasmo ganha o espaço do terreiro num crescendo.
A entrada em transe ganha todas as atenções e um a um os filhos e filhas vão se deixando "tomar" por seus encantados. Mas depois de certo tempo ainda resistem heroicamente ao transe alguns "cavalos", vários deles demonstrando por gestos e expressões faciais que não desejam ser "possuídos". Aqui observa-se algo inscrito no código do terreiro, revelando uma dimensão da distribuição hierárquica do poder religioso no candomblé. Os "mais velhos de santo", isto é, iniciados há mais tempo, demoram um pouco mais a serem possuídos. Detêm maior controle do transe, pois conhecem o código da possessão mais apuradamente, podendo manobrar seus sinais e sabendo "correr" na hora em que esses sinais se fazem sentir mais agudamente. Com o adiamento do transe, afirmam sua posição na hierarquia do grupo de culto. Isto faz parte da "cena" da possessão.
Na tentativa de trazer mais caboclos para o encontro, os ogãs, assumindo ares de superioridade que os caracteriza, põem-se a cantar:
Ainda tem caboclo debaixo da samambaia
Ainda tem caboclo debaixo da samambaia
Debaixo da samambaia
No pé da samambaia
Ainda tem caboclo
Os renitentes vão por fim deixando aflorar o encantado. Não se pode escapar ao poder desta cantiga "de fundamento". Quem não quer entar em transe tem que sair do barracão até passar o perigo.
Estão todos "em terra" agora: caboclos e caboclas, boiadeiros e marujos. É hora de paramentar os encantados. É costume levar os caboclos em transe para o roncó (quarto de reclusão) para serem vestidos com trajes completos ou ao menos serem adornados com os atacans, espécie de tiras de pano amarradas no tronco, terminadas em laços, de modo a permitir livres movimentos nas danças. Vestem-nos com tecidos de uma profusão de cores. Cocares de penas e chapéus de vaqueiro adornam as cabeças, dependendo se são caboclos ou boiadeiros. Alguns trazem nas mãos lanças, arco-e-flecha ou chocalhos.
Vestidos, voltam em fila ao barracão, dançando a seguinte cantiga:
Toté, toté de maiongá
maiongonbê (bis)
Dançam com o corpo inclinado para frente, com os braços estendidos à frente do corpo, num movimento de vai-e-vem. Os pés acompanham o movimento dos braços, levando o corpo para a frente. Ao mesmo tempo, cumprimentam os presentes, dando precedência às autoridades religiosas presentes, terminando com os mais simples presentes na platéia que se aglomeram no espaço do barracão reservado aos clientes e visitantes.
A precedência por tempo de iniciação também é observada no momento em que os caboclos retornam ao barracão e também no momento em que cada um saúda a casa e o público presente com suas salvas e cantos de chegada. Um por um, numa ordem que revela a importância do tempo de iniciação na composição da hierarquia dos caboclos, começando pelo caboclo da mãe ou pai-de-santo, seguido dos mais velhos, cada caboclo posta-se na frente dos atabaques, um joelho apoiado no chão, e canta as cantigas que lhe dão identidade. O caboclo reza sua oração e todos cantam com ele.
Dentre muitas cantigas do vasto repertório dos caboclos, poderemos escutar:
E boa noite meus senhores
Boa noite minhas senhoras
Sou eu, Sete Flechas que cheguei aqui agora
Ou ainda:
Campestre Verde, a meu Jesus (bis)
Madalena e Maria no pé da cruz (bis)
Com sete dias minha mãe me deixou (bis)
Me deixou numa clareira
Osanha quem me criou (bis)
É um xeto ê, é um xetô a (bis)
Boiadeiro Trilheiro veio aqui prá vos saudar (bis)

E assim vão cantando e dançando no ritmo frenético dos atabaques.
Ouve-se um misto de louvações sobre as coisas e lugares do Brasil, saudações aos orixás ou alusões a Jesus Cristo e santos católicos, emergindo daí todo um sincretismo presente com certeza nesse culto dos caboclos, os ditos senhores desta terra.
Como exemplo, citamos alguns cantigas:
E lá em Roma tem uma igreja (bis)
E dentro dela tem morador (bis)
Lá tem um anjo de braços abertos (bis)
E esse anjo é Nosso Senhor (bis)

Aqui nesta aldeia
tem um caboclo que ele é real
Ele não mora longe
mora aqui mesmo neste cazuá

Pisa caboclo aqui nesta aldeia
Mostra o teu sangue que corre nas veias (bis)

Caboclo flecheiro, tú és da nação do Brasil
Tu és da nação do Brasil, meu caboclo
Caboclo flecheiro

Mas ele vem pelo rio de Contas
Vem caminhando por aquela rua (bis)
Olha que beleza, seu Lua Nova
no clarão da lua (bis)

Caça, caça no Canindé
Cura ê, cura ô
Caça, caça no Canindé
Pena Verde é caçador

Aê Juçara, dona Juçara eu vim te ver
Aê Juçara, dona Juçara como vai você

Pedrinha de um lado
Pedrinha do outro
Pedrinha lá na mata é
Quem pode mais é Deus do céu
Jesus, Maria e José

Pedrinha miudinha na aruanda ê
Lajedo tão grande
Tão grande na aruanda ê
Não somente os ogãs puxam as cantigas, mas também os caboclos apreciam fazê-lo. Muitas vezes as cantigas trazem um pouco da história mítica de cada um, assim:
Aê Iemanjá (bis)
Rainha sereia
Sô Cabocla do Mar (bis)

Sô caboclo, sô flecheiro
Sindara cuiá
Sô Oxossi, sô guerreiro
Sindara cuiá
Eu venho lá da mata
Sindara cuiá
Sô filho de Iemanjá
Sindara cuiá

Verde e amarelo
Mar do norte e sul
Sô Cabocla do Mar
Andando no mar azul

Caboclinho da mata virgem
das ondas do mar
Sô filho da Vizala
Filho da sereia do mar
Apesar da aparente desordem no barracão, os caboclos respeitam-se entre si e se fazem respeitar por todos os presentes. São criteriosos ao solicitar algo, mesmo que seja um charuto ou uma bebida, e fazem-no de modo jocoso, revelando contudo sempre um formalismo, cuja etiqueta faz parte das exigências cotidianas do candomblé:
Ô dona da casa
Por Deus e Nossa Senhora
Dá-me o que beber
Senão eu vou-me embora!

Sem beber não faço samba
Sem beber, não sei sambar
Se por um lado existe o respeito mútuo, por outro pode-se estabelecer entre eles a disputa pela melhor performance nas danças, ou o chamado "sotaque", em que um chama o outro para uma espécie de desafio de cantigas, duelo verbal tão caro à cultura popular nordestina.
Depois é hora de dançar por sobre uma vara de madeira colocada no chão em frente aos atabaques. Os caboclos devem dançar pulando de um lado a outro da vara, como se estivessem embriagados, sem tropeçar ou mover o objeto no chão. Neste ato lúdico, a disputa é sempre acirrada e muitas vezes cria uma verdadeira competição na qual o caboclo do dono da casa deverá sempre sair-se bem, sob pena de ver posto em dúvida seu poder mágico. Afinal, as entidades do chefe da casa, quer se trate de orixá, inquice ou caboclo, são sempre consideradas as mais poderosas.
Entre outras cantigas podemos citar:
Ô piaba, pula por cima do pau
ô piaba (bis)

Bate tambor solta a piaba
Caboclo do junco
caboclo da mata

Caboclo na mata corta dendê
dendê de samba angolê
A festa é uma profusão de danças, em que um a um os caboclos vão fazendo seu solo. Os ritmos, muito próximos do samba da música popular que deles se originou, são alegres e contagiantes. Os encantados puxam suas cantigas que são repetidas pelos alabês, demais caboclos, adeptos e simpatizantes da platéia. Fumam charuto o tempo todo e bebem numa cuia um preparado fermentado, quando não vinho, cerveja ou outra bebida alcoólica. Os alabês tocam os três atabaques, sempre percutidos com as mãos, em ritmos característicos do candomblé angola, enquanto os caboclos oferecem sua cuia aos amigos e autoridades presentes, os quais bebem virando-se de costas para o caboclo, para que ele não o veja beber, conforme manda a etiqueta dos tempos em que não se bebia na presença dos "mais velhos".
Mais adiante os caboclos convidam presentes a dançar uma ou outra cantiga, fazendo grande estardalhaço:
Se eu era branco eu não era caboclo
Põe a moça bonita pra dançar na roda
Não se estabelece rigorosamente a duração da festa. O caboclo do dono da casa é autoridade máxima nesse ritual e decidirá, na maioria das vezes, quando deve ser finalizada a festa.
Ao final, um ogã canta uma cantiga de agradecimento a Deus pela presença dos caboclos. É o deus cristão que é lembrado:
Graças a Deus, ora meu Deus
Louvado seja Deus, ora meu Deus
Graças a Deus, ora meu Deus
O dia em que Laje Grande nasceu
ora meu Deus.
O caboclo da dona da casa agradece a todos pela presença. Seguido pelos outros caboclos, abraça cada um dos presente, e finalmente canta sua despedida:
Eu já vou, já vou
Eu já vou prá lá
O meu pai me chama,
eu sou filho obediente
Eu não posso mais ficar
Novamente a fila dos caboclos é precedida por ele e dançando, um a um, cumprimentam a porta do terreiro, o ariaxé (ponto da força sagrada do terreiro), os atabaques, e encaminham-se para o roncó onde são despachados. Antes saúdam os presentes com os abraços característicos do candomblé, em que se tocam os ombros alternadamente por três vezes.
Às vezes a saída dos caboclos vai se fazendo aos poucos, retirando-se primeiro os com menos tempo de iniciação, enquanto os outros continuam dançando, até sobrarem dois ou três, que insistem em querer ficar:
Eu estava indo deste arraial
Eu já ia embora deste arraial
Resolvi, não vou mais
Todos aplaudem e apoiam a decisão do caboclo, mas já é hora da festa terminar e sempre alguma autoridade do terreiro mostrará ao caboclo que seu tempo acabou.
Aos poucos os filhos "desvirados" vão voltando ao barracão. Todos estão cansados, cavalos e ogãs. Apesar dos semblantes exaustos de cada um dos presentes, todos demonstram contentamento. Muitas palavras de alento também foram escutadas dos caboclos. A festa não foi somente canto e dança. Os caboclos estiveram na terra também para trazer mensagens, talvez dos próprios orixás, ensinaram beberagens para vários males, assim como deram conselhos a muitos, estabelecendo um laço de confiança para que se perpetue a sua imagem de pai e protetor. Mas sobretudo dançaram, porque é dia de festa, não de trabalho. Há um clima geral de alegria e um sentimento compartilhado de missão cumprida. Agora vamos comer.
Uma festa termina com comida farta. Arroz, farofa, carnes, saladas são pratos preferenciais. E muita fruta, pois não há festa de caboclo sem uma profusão de frutas de todas as espécies: jaca, melancia, melão, laranja, tangerina, abacaxi, mamão, abacate, banana, fruta-do-conde, caju, carambola, maçã e até quiuí, além de moranga, comida predileta dos caboclos. Refrigerante e cerveja completam o banquete dos caboclos.

Um comentário:

  1. adorei a descrição dessa festa! foi tudo nos conformes... sou iniciado num candomblé de nação angola, e lendo esse texto, parecia que eu estava na festa da minha casa! PARABÉNS!!

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