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quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres médiuns e caboclas espirituais




Por: José Francisco Miguel Henriques BairrãoI; Raquel Redondo RottaIIMétodo


Os dados foram coletados com base em observação participante, notas em diário de campo e conversas guiadas por roteiro com médiuns desincorporadas e incorporadas por suas caboclas. Procedeu-se a uma observação atenta do contexto umbandista baseada na tese de inspiração psicanalítica de que atos equivalem-se a dizeres (LACAN, inédito).

O método de observação participante (MALINOWSKI, 1922-1998) foi aplicado tendo em vista o modo como a intersubjetividade entre pesquisador e sujeitos pesquisados se configura nas religiões afro-brasileiras. Assim como o pesquisador observa, é observado pelo grupo, que o socializa e significa-o dentro de sua lógica própria (SILVA, 2000), o que em psicanálise se chamaria de transferência. Em relação à umbanda, Bairrão (2005) afirma que o pesquisador, ao pedir para que espíritos narrem suas histórias, é cuidado e interpretado pela espiritualidade. É colocado no papel de consulente, ou seja, de filho da casa. Ao interpretar o pesquisador, a umbanda o significa, mostrando-o, tal como qualquer outro filho, participante da produção de sentidos que nela se manifesta.

A experiência psíquica suscitada pelo trabalho de campo não pode ser menosprezada. Dessa forma, a atenção às vivências do pesquisador, tal como do psicanalista, faz parte do seu trabalho. Processo semelhante ao que em psicanálise se conhece como contratransferência, tendo sido Devereux (1967-1977) que pela primeira vez aplicou esse conceito ao contexto etnográfico.

Em muitas das conversas com médiuns incorporadas repetiu-se o fato de as entidades espirituais nos aconselharem a não tentarmos entender o que são as caboclas apenas por intermédio de perguntas. Era preciso senti-las. A atenção flutuante a sensações, ações e palavras (a significantes) que se repetiram resultou em informações que apareceram nos dados de maneira entrelaçada e talvez por isso reiterativa. Ou seja, foi praticamente impossível isolar um tema apenas para efeito de análise, sendo que estes em geral se concretizam em situações em que aparecem em composição com outros aspectos igualmente significativos.

A atenção aos dados permitiu percebê-los ordenados em três eixos que não podem ser tratados em separado, mas que são indispensáveis a uma melhor visualização da concatenação dos sentidos veiculados de permeio às entidades caboclas (o seu nome, o seu contexto, as suas falas e as suas ações). São eles: a composição do cenário das entidades espirituais; as suas funções religiosas e rituais; e o tipo de vínculo entre médiuns e suas entidades espirituais. A leitura dos dados segundo estas três perspectivas, não obstante a sua intrínseca interligação, permitiu que sutilezas e minúcias viessem à tona e a análise se tornasse mais precisa.


Não se propõe uma nova teoria a respeito da religiosidade umbandista. O foco foi dirigido ao que dizem as religiosas sobre suas relações com as entidades caboclas, assim como ao que dizem as caboclas sobre si e sobre suas médiuns (incluindo informações e impressões coletadas no decorrer da convivência com as comunidades umbandistas participantes). As primeiras impressões suscitadas pelo trabalho de campo foram devolvidas e repensadas à luz dos comentários e reações das interlocutoras humanas (médiuns) e espirituais (caboclas), em um processo contínuo de produção coletiva de conhecimento.

O trabalho de campo foi desenvolvido com médiuns e em terreiros umbandistas de Ribeirão Preto e região. Participaram a Casa de Caridade Mãe Maria, o Centro de Umbanda de Oxalá e Iemanjá, o Núcleo de Umbanda Sagrada Flecha Dourada (Bonfim Paulista), a Tenda de Umbanda Filhos de Iansã, o Terreiro de Umbanda do Pai José do Rosário e o Terreiro Pai Benedito (Jardinópolis). Por motivos éticos, não se identificam as médiuns colaboradoras. Cabe frisar que três delas não pertencem às comunidades citadas, sendo suas participações independentes de seus vínculos institucionais. Os nomes das entidades caboclas, que não poderiam por si só identificar as médiuns participantes, foram mantidos, inclusive por se tratar de um item fundamental para a análise.

Resultados e Discussão

Ao buscar as caboclas, todo o universo umbandista se comunicou. Nos primeiros momentos, outra linha de entidades fez-se notar: as pombajiras. As duas são espíritos femininos cultuados na umbanda, sendo que as caboclas se associam à beleza e à natureza (frequentemente às terras úmidas, e às matas) e as pombajiras se relacionam ao erotismo e ao ígneo. Muitas vezes foi necessário conversar com as colaboradoras incorporadas pelas pombajiras, antes de obter entrevistas com as caboclas. Outras vezes, as médiuns falaram mais sobre essas entidades, mesmo quando as perguntas se referiam às caboclas. As próprias, incorporadas em suas médiuns, indicaram a importância de se trabalhar com as pombajiras: “precisa aprender a fazer fogo para se virar na mata” (Cabocla Ianca).

Esses fatos estão de acordo com a organização do culto umbandista, cujos rituais não começam antes de se homenagear exus e pombajiras. Mais que isso, tais dados sugerem uma trama profunda entre os diversos tipos de entidades e dão dicas a respeito de como o universo umbandista se manifesta e responde aos que o procuram. As caboclas não se apresentam isoladamente: integram um sistema que também as revela por meio das vozes de outras mulheres, espíritos ou humanas: pombajiras, pretas velhas, baianas, médiuns, consulentes etc. É possível, pela lógica da umbanda, uma entidade espiritual enviar um recado para alguém por intermédio da boca (do corpo) de outra pessoa, incorporada ou não. A Cabocla Flecha da Mata diz que quando precisa falar algo para sua médium, “essa índia [a cabocla] faz essa empurramenta, pra bater bica com outras índia [outras pessoas] cá, nessa oca, para transmitir essa pensamenta”.

No convívio com as caboclas e ao analisar os depoimentos coletados, a sensação de beleza se repetiu insistentemente. Elas mostraram-se belas, em muitos sentidos. Uma das entrevistadas (Cabocla Ianca) falava com uma entonação melódica e de forma poética, compondo um cenário agradável de imaginar: “echa cachoeira, echa formosa, echa festeira, echa tinha echa muito verde, echa muito peixe, echa sol raiando echa forte, echa formoso”. Todas fizeram referências a adornos, cocares, tranças e outros tipos de enfeites “pra ficar formosa, cabocla sempre gostou de ficar muito formosa, bonita” (Cabocla Sete Espadas). Uma das médiuns disse conhecer também a cabocla que sua tia recebe: “(...) de cabelo comprido, sempre cheiroso (...) coisa de cuidado da pele, sabe?”. Suas médiuns se emocionam ao falarem delas. Disseram que suas caboclas são doces. E sempre mais bonitas e morenas que as mulheres que as recebem. Uma cabocla foi descrita sendo “magra, cabelo grande, de pedaços. Cor de índia, olhos grandes, muito pretos, penas na cabeça, pernas, tanga. Nos seios, um pano” (médium da Cabocla Flecha da Mata). Outra valoriza suas características, como a “pele bem escura, fia. Esse não a cá, esse. Escura. (...) Essa esse cabelo comprido, liso.” (Cabocla Sete Espadas). Evidenciamos que as caboclas evocam sensações de beleza e ternos sentimentos: “Me faz sentir bem. Chego a ficar emocionada quando eu sinto que é ela” (médium da Caboclinha).

O significante água se repetiu de forma importante, muitas vezes relacionado a emoções. As caboclas disseram ter vivido perto de rios, lagos ou cachoeiras. As que participaram deste estudo eram caboclas de água doce. Evidenciou-se uma intersecção com Oxum, orixá feminino relacionado ao amor, à água doce, à feminilidade e à beleza. Uma médium nos contou que elas “trabalham muito nas emoções, nas águas”. As águas também se destacaram em conversas informais com médiuns e caboclas. Fazem parte do cenário de experiências de vida ligadas à espiritualidade, como por exemplo no caso de uma mulher que, em visita a uma cachoeira, por intermédio de uma médium vidente, soube da presença de uma cabocla, que sempre a acompanha. Disse ainda a Cabocla Flecha Pequena: “qüi no mato, água, água, muita água, que corra”. A médium da Caboclinha mostrou uma figura na qual a reconhecia. Era o desenho de uma mocinha negra, com os pés dentro de um lago. A Cabocla Sete Espadas descreveu um ambiente de matas alagáveis: “esse muita água e muita mato filha (...) esse muito esse água”. As médiuns também sonham com água e relacionam esses sonhos a vivências de cunho espiritual. A que recebe a Flecha da Mata contou que sonha com água cristalina e acorda em paz, como se tudo fosse perfeito, em uma atmosfera que diz estar em sintonia com sua cabocla. Outra médium afirmou que sonha com água frequentemente, e acredita se tratar de uma ligação com suas entidades. Este resultado é coerente com o encontrado em um estudo sobre o simbolismo da água na umbanda: Graminha e Bairrão (2009) destacam a sua relação com os sentidos de vida, fertilidade, feminino e, principalmente, maternidade. Além disso, “muita água, que corra” por entre as matas remete a um sentido de movimento.

Sonhos contados por três médiuns sem contato entre si são ilustrativos de como os significantes que se repetiram no decorrer da pesquisa apresentaram-se correlacionados. Entre eles, destaca-se a água, a feminilidade e a maturidade. Em um deles, a colaboradora se vê em uma piscina, debaixo de chuva, com a mãe, em um contexto em que a médium deixava a mãe para ir atrás do que desejava: seguir o som de tambores (para a médium os tambores significam um dos tipos de chamado do mundo espiritual). Todas as outras pessoas que apareceram nesse sonho eram mulheres. Destaca-se a água, o gênero feminino, a maternidade e o tornar-se adulta, ou seja, desvencilhar-se dos domínios da mãe. No sonho relatado por outra médium, o sentido do tornar-se uma mulher adulta se repete: ela se encontra com uma senhora com a aparência de índia, de cabelos longos, que a coloca na frente de um espelho e tira seus cabelos do rosto. Revela-a diante de seu reflexo (metaforicamente associável à superfície das águas). E assim ela cresce, se transforma, torna-se mulher capaz de amar e ser amada. No terceiro sonho, a médium diz ter encontrado uma mulher mais velha, que a chama para conhecer algo importante, barrando a entrada do seu marido no local. Era uma árvore enorme, a qual a mulher chamava de Jurema. Jurema, além de uma árvore sagrada em cultos de origem indígena que estão entre as raízes da umbanda, também é o nome de uma linha de caboclas, muito tradicional (BAIRRÃO, 2003b). E o sonho reverberou: a médium contou seu sonho à mãe de santo, que se emocionou e lembrou-se de uma árvore com as mesmas características, que todos dizem ser a árvore de sua finada mãe, famosa mãe de santo, figura de admiração e respeito. As caboclas também são tidas como mães. Tratam os fiéis como seus filhos. Emocionam as pessoas e apresentam-se como mulheres. Mulheres sempre mais (fortes, bonitas, morenas etc) como exemplos a serem seguidos.

As plantas, assim como a água e a maternidade, também surgiram repetidamente. Árvores e matas compõem o cenário das referidas entidades espirituais. As caboclas se descreveram nesses ambientes e suas médiuns referiram sentir-se bem neles. Uma das médiuns disse gostar de mato. Se não pode ir fica “aguada”. Água e mato. A Ianca disse morar na “mata profunda, densa, fechada, perto do rio”. Outra cabocla disse que “essa [Cabocla] Flecha Pequena, aqui, mata, lonja, lonja”. Ressaltam-se os adjetivos relativos à mata, que incitam a um sentido de algo desconhecido, misterioso. Ratifica o pai de santo de uma das casas participantes: “as caboclas trazem um mistério que mexe com o íntimo das pessoas”. Ainda, a grande árvore do sonho da médium acaba remetendo à mãe (da mãe de santo), uma figura de mulher idosa, assim como a senhora índia do outro sonho. A figura da índia leva a pensar em matas ou florestas. Mulheres que se metaforizam em plantas e plantas que “são” caboclas. Disse a Cabocla Sete Espadas:

[...] como natureza saísse de dentro de cabocla. E se cabocla saísse de dentro de natureza, esse. Quando cabocla pegasse esse pedaço de planta, filha, é como se cabocla esse estivesse lá dentro, filha. Essa, como fosse pedaço de cabocla.

Na mesma direção, uma colaboradora fala sobre a Flecha Pequena: “é como se fundisse, né”. Tão próximo e desconhecido.

As flores também apareceram relacionadas às caboclas. Disse a médium da Caboclinha: “A minha [cabocla], ela tem um cheiro, (...) é uma mistura de cheiro de mato, mato mesmo, com uma coisa assim de flor, (...) eu sei que é ela”. Muitas destas entidades “trabalham” entregando flores aos seus fiéis. Uma das médiuns disse sobre as caboclas: “elas nos trazem flores, alegria, felicidade, facilidade para tornar nossa caminhada mais cheia de coloridos”. E complementou: as mulheres sob influência de caboclas “são normalmente mais femininas e delicadas”. Ainda, uma senhora umbandista aconselhou a manter flores em casa. Flores são como “encantamentos que estão dando contorno às estradas”, para se caminhar com “alegria e leveza”, disse uma das médiuns.

Deve-se atentar para o cunho concreto da linguagem umbandista. Apesar de uma das médiuns, mais intelectualizada, usar a palavra flor como metáfora de alegria e felicidade, geralmente os elementos não são simplesmente símbolos que remetem a algum sentido predeterminado. Estão dados objetivamente e presentificam divindades por meio de cheiros ou da presença do próprio elemento.

Terra também emergiu de forma importante na análise dos dados. A médium da Caboclinha disse que sua cabocla é pé no chão, é “da terra, mesmo”. A Cabocla Ianca afirmou estar perto quando os fiéis precisam dela: “se ouvir bater no chão com o pé, sou eu”. É a terra que fornece as ervas com as quais a Cabocla Jurema prepara os banhos de limpeza (física e espiritual) para seus filhos. A Cabocla Ianca contou como faz remédio: a folha das plantas deve ser “amassada, punha um pouco de água, barro, deixava no sereno a noite toda”.

Cabe aqui retomar uma hipótese explorada por diversos autores (CARNEIRO, 1964; SANTOS, 1995; PRANDI; VALLADO; SOUZA, 2001), particularmente a respeito do candomblé, segundo a qual a linha dos caboclos seria cunhada pela necessidade de inserção de um elemento autóctone num culto de origem africana em novo território (as Américas). “Terra” pode remeter a território e corroborar a ideia de que os caboclos são cultuados pelos descendentes de africanos como os donos da terra, ou seja, como espíritos ligados ao território brasileiro. Por outro lado, o significante em questão também pode admitir um sentido de chão, local seguro para caminhar. O chão, a terra, é “o que te dá subsídios pra caminhar”, disse uma das médiuns. As caboclas tornam “nossa caminhada mais cheia de coloridos”. A Inaê Obá contou que indica o caminho que sua médium deve seguir. Ainda, “Cabocla [Sete Espadas] esse quer ver esse tudo fiarada formosa, filha, caminhando pra esse caminho ser colorido, filha”. A médium da Cabocla Estrela d´Dalva disse que “ela [cabocla] trabalha para iluminar o caminho dos seus filhos”. Ao iluminar ou sustentar o caminho das suas médiuns, as caboclas as incitam a colocarem as suas vidas em movimento.

De formas variadas, luz também acompanha o contexto umbandista relacionado às caboclas. Suas médiuns as consideram espíritos evoluídos, de muita luz. A Cabocla Sete Espadas tem “esse pele bem escura, fia (...) muito sol, muita luz”. Disse a médium da Caboclinha “eu consegui enxergar, estava escuro, né (...) essa luz era ela [cabocla]”. Complementa: “Quando ela chega, parece que o ambiente fica mais claro, parece que a luz aumenta.”. Outra médium contou que sua cabocla clareia seus pensamentos. A estrela desenhada no ponto riscado da Cabocla Jurema serve “para iluminar a fiarada da terra”.

“As caboclas nos inspiram para a vida. Nos dão inspiração, e não só coragem pura”, contou uma das médiuns. Elas parecem transmitir um misto de firmeza e serenidade, em um sentido de fluidez natural da vida. Nas descrições e autodescrições foi relatado que elas vivem em aldeias. Diz Flecha Pequena que “aldeia, mata, cabocla ajuda, muita, muita lua, fica aldeia”. Neste contexto, emerge a imagem de uma convivência tranquila com parentes e uma vida comunitária geralmente harmônica com os outros habitantes. Todos trabalham, se ajudam e cuidam das crianças. Ensina a Cabocla Jurema que, em sua aldeia, não era preciso muito trabalho, como hoje em dia, pois Tupã trazia “toda la correrada”, ou seja, tudo o que era necessário.

Serenidade e firmeza: “Essa cabocla é Flecha da Mata. Porque essa era muito formosa essa nomadora (...). Essa índia era muita guerreira”. Essas caboclas foram descritas como mulheres destemidas, que não se amedrontam diante da guerra ou dos perigos da mata. E determinadas, seja no ato de aconselhar suas médiuns e fiéis ou ao se descreverem. Uma delas disse não aguentar ficar parada, precisar ir à luta. A Cabocla Sete Espadas se descreveu persistente: “Essa cabocla essa era muito, como fala hoje, teimosa, filha. Quando cabocla queria, esse fazer coisa, filha, (...) mostrava que esse precisava fazer”. Notamos a expressão dessa força e determinação inclusive na imagem das médiuns incorporadas. A postura ereta, o olhar altivo e seguro. Realizam os passes com movimentos firmes, e suas “chegadas e partidas” acontecem rapidamente, “(...) como uma rajada de vento, que me joga, me pega assim, é ela” (médium da Cabocla Sete Espadas).

Além dessas expressões de força e determinação, pode-se observar o que é dito por meio dos movimentos corporais durante a possessão. Médiuns incorporadas por caboclas das águas (Sete Cascatas e Caboclinha, por exemplo), enquanto andam delicadamente para a frente, movimentam seus braços e mãos de forma circular, em movimentos ondulatórios que evocam água corrente. As caboclas mais relacionadas com Oxóssi, orixá caçador ligado às matas (Flecha da Mata, Flecha Pequena, entre outras) batem firmemente seus punhos no peito e se movimentam como se atirassem flechas. Sentidos de movimento já se fizeram notar pelas imagens de água correndo pelas matas e pela ideia de caminho a ser percorrido. Pode-se dizer, então, que as entidades espirituais impelem suas médiuns a movimentarem-se tanto concreta quanto metaforicamente. Os movimentos corporais parecem sintetizar significados de movimentação na vida, como ensina a Cabocla Jurema à sua médium: “Ela tem muita coisa para fazer, direção para tomar, mas não toma. Fica parada no meio do caminho (...). Ela sabe que tem que seguir em frente”. Assim, as mulheres sob a influência de suas caboclas se movimentam (como a água que corre, a vida que flui). Vão adiante, desenvolvem-se, buscam realizar-se.

Os resultados até aqui apresentados se entrelaçam e se compõem esteticamente numa espécie de escrita visionária que apresenta as caboclas como um horizonte espiritual entretecido de referências significantes à natureza pujante da terra eivada de matas e rios. Por meio de combinações possíveis dentro desta linguagem, cada cabocla personifica e dá um colorido particular a uma instância de alteridade que se delineia como uma composição de quadros de significações sensorialmente vividas, que podem expressar e estar articuladas a nuances sutis da experiência psíquica das suas médiuns. Para efeito de ilustração, segue o relato das relações entre uma cabocla e sua médium, que na ocasião da pesquisa tinha cerca de 40 anos e residia na periferia de Ribeirão Preto. Casada e mãe de dois filhos, trabalhava durante o horário comercial. Fora do trabalho, cuidava da casa e das crianças.

Sua relação com a cabocla que incorpora passa por questões de autoconhecimento, misto de intimidade e encontro com o desconhecido, que pode causar medo. A mulher diz ter certo receio de sua cabocla, “... como se ela fizesse uma barreira,... bem, é... ou talvez ela seja até muito mais, tá, então eu sinto essa barreira”. A médium sente uma barreira entre elas. Elas estão distantes: a mulher fala mais de suas outras entidades do que de sua cabocla. E a forma como a cabocla se expressa é de difícil entendimento: “cabocla soba jamba, poca tempa, cabocla livra, corra”. A médium inclusive falou sobre sua entidade espiritual: “eu não conheço ela”. E interrompeu o que estava falando para perguntar: “mas não tem uma luz aqui, não? (...) cadê a luz daqui?”. Pelo encadeamento de seu discurso, fica clara a relação que ela faz entre a distância entre elas e a falta de luz (no ambiente e metaforicamente no seu panteão pessoal).

A relação com a cabocla pode servir de veículo de expressão da distância entre sua vida atual e o que ela gostaria de viver. A médium diz estar longe de si mesma: “acho que faz tanto tempo que não sei o que é ser eu mesma, que eu sinto falta disso, sabe?”. Em seu discurso, aparecem queixas de falta de liberdade: “Até agora não consegui sair, mas um dia eu consigo”. Antes presa pelo pai, agora se sente limitada pelo marido e pelos filhos. Diz ela: “A prioridade é dos meninos e dele, eu quase não tenho.”. Quando questionada sobre o que gosta, ela diz que “pra mim, esse lugar perfeito é assim, (...) é um ranchinho na beira de um rio (...) e mato, muito mato. O sonho era tá lá, com o pé na terra, abraçar as árvores”. Aparecem os significantes relacionados com as caboclas: mato, água (rio) e terra. Seu sonho é estar com o “pé na terra”, ou seja, tocar a vida para frente, escolher seu caminho e segui-lo, conhecer e posicionar-se em relação ao seu desejo. Sente-se impedida de fazer isso. Ou ainda, “tenho medo de cair no rio (...) não sei o que é, tenho medo de morrer afogada”. Água e emoções relacionam-se neste universo, portanto, pode-se supor certa dificuldade em entrar em contato com suas emoções.

A cabocla parece distante, brava, mas faz-se notar: “sinto ela assim, é... boa, mas brava, enérgica”. Conta também que, quando está em contato com sua cabocla, sente “a mata, o cheiro do mato, é como se eu me encontrasse. Sabe, é como se fundisse, né.”. Portanto, essa instância de seu panteão pessoal parece impelir, apesar das resistências e receios da mulher, ao autoconhecimento, que tem como consequência o amadurecimento e a serenidade.

Considerações finais

É provável que a umbanda, com suas caboclas, proporcione meios para que suas fiéis elaborem os tipos de desafios e correlatas vicissitudes que elas podem experimentar na qualidade de mulheres e mães, sedimentando a busca pela maturidade. A par do seu estatuto, tal como os umbandistas o assumem, especificamente transcendente e espiritual, as caboclas parecem, do ponto de vista da dinâmica psíquica das suas médiuns, impelir a consumação de um ideal de pessoa e consubstanciar imagens de mulheres realizadas.

Os resultados ratificam que as caboclas, inseridas no contexto da umbanda, interpelam as pessoas a partir de um entrecruzamento de significantes, que se combinam de infinitas formas, refletindo o humano (BAIRRÃO, 2003a), a partir de uma plataforma externa, coletiva e social (CRAPANZANO, 1977). Familiarizar-se com esses dispositivos sociais pode ser útil na atuação de profissionais psicólogos que, ao trabalharem com a população brasileira, invariavelmente entrarão em contato com esse universo.

Este estudo, longe de tentar apreender as caboclas em sua totalidade, traz à tona sentidos comumente encontrados no universo simbólico referente a elas na umbanda. Nesse contexto, dentre os significantes que se repetiram, destacaram-se água, terra, árvore e matas (plantas), caminho e luz. A terra parece relacionar-se a uma base de sustentação para um andar adiante, um caminhar rumo a um amadurecimento. A água, combinada com terra e luz, lhes permite assumir a forma de árvores e outras plantas, vida que se enraíza na terra e cresce, se desenvolve. As caboclas apresentam-se como beleza iluminadora dos projetos de vida (caminhos) das suas médiuns, luz da terra que muitas vezes literalmente se especifica por meio do colorido das flores. Sentidos veiculados pela água, como sensibilidade e inspiração, penetram e circulam (fluem, movimentam-se) nos recônditos menos acessíveis da mata, que por sua vez remete a um sentido de desconhecido a ser explorado.

Os dados confirmaram que as possibilidades de sentidos expressados pela linguagem umbandista vão além da comunicação verbal. Incluem o que pode ser dito por intermédio de movimentos corporais, que sintetizam significados, e por meio de imagens de cenários e objetos usados ritualmente. Nesse sentido, comprova-se a utilidade de olhar para os dados pelas três diferentes perspectivas, ou eixos, inicialmente descritas: a composição do cenário das entidades espirituais, as suas funções religiosas e rituais, e o tipo de vínculo entre médiuns e suas entidades espirituais. Por exemplo, uma cachoeira pode ser o cenário onde as caboclas se descrevem e também o local concreto onde as médiuns se sentem mais próximas a esses espíritos, assim como a imagem de águas em cascatas pode sintetizar sentidos de movimento, fluidez e fertilidade.

Seja na forma de pés que caminham firmemente, ou de estrelas iluminadoras, as caboclas se apresentam às suas médiuns como imagens construídas esteticamente, a partir de combinatórias de significantes a elas relacionados. A água, por exemplo, comporta variações que vão do deserto (a referência é pela falta) a terras completamente alagáveis. E esses arranjos plásticos do elemento água se combinam também com outros significantes e suas modelagens, compondo sentidos específicos, por meio de uma escrita por imagens (pictografia) capaz de expressar e refletir a complexidade humana de forma sofisticada.

Não é possível conhecer as caboclas por si só. Elas se mostram em relação. Suas narrativas, descrições e autodescrições aparecem como mensagens relativas a alguém que com elas interaja e esteja disponível para dar ouvidos aos significantes que as compõem; implicação esta que se proporciona num dispositivo simbólico e social, o ritual, que se põe a serviço de construções e elaboração de identidades.

As caboclas propõem-se como alteridades suficientemente distantes para que as suas médiuns se vejam refletidas, mas também igualmente perto para que exerçam uma força de atração rumo à realização de um ideal de pessoa que elas consubstanciam. Neste sentido, tanto iluminam processos de autodescoberta como, ao proporem-se como um ideal de realização a ser alcançado, funcionam contrastivamente, mostrando às médiuns e a quem as procure não apenas uma imagem do já dado, como um modelo de qualidades a ser alcançado. Uma e outra coisa ao mesmo tempo.

Nesta medida as caboclas, as narrativas de suas vidas e dos cenários da sua ação, tanto revelam a sua natureza luminosa como, pelo fato das imagens que as refletem e do seu potencial reflexivo (luz e espelho ao mesmo tempo) serem figuras significativas (significantes), induzem, aconselham, mais pelo exemplo do que pelas palavras, àtransformação pessoal daquelas que as vêem, ou melhor, para quem se mostram. É o que se percebe nas várias narrativas em que as médiuns ora se apresentam como parecidas com as suas caboclas, ora estas como tendo superlativamente alguma qualidade que as mulheres compartilham ou que gostariam de vir a ter (altas, morenas, independentes, bonitas, determinadas, confiantes etc.). Deste modo, o seu estudo não apenas permite conhecer uma parte relevante da espiritualidade umbandista, como, ao dar-lhe ouvidos, também nos conta a respeito do universo existencial e psicológico das mulheres que se dedicam ao seu culto.

Referências



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